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Wander com os seus filhos, Gabriel e Ana Clara Wander com os seus filhos, Gabriel e Ana Clara Arquivo Pessoal

Especial Dia dos Pais: Os sonhos vêm antes do diagnóstico

Neste dia dos pais vamos conhecer Wander, funcionário público de 47 anos que perdeu a visão no auge da sua vida, e apesar do medo, não desistiu de ser feliz, voltar a trabalhar e construir uma família.

 

Wander é um exemplo de que nada pode nos impedir de sermos o nosso melhor. Ao perder a visão devido a uma patologia, que não lhe deu chance de recuperá-la, ele teve depressão e não entendia como era possível realizar os sonhos que tinha e continuar a viver.

A vida lhe surpreendeu da melhor forma. Depois de uma conversa que o impulsionaria a decidir de uma vez por todas qual caminho escolher, deu a volta por cima, “reaprendeu” a escrever e trabalhar, conheceu o amor de sua vida, se tornou o pai de criação do Gabriel e mais tarde pai biológico da menina Ana Clara.

Nesse dia dos pais, pedimos a ele que compartilhasse um pouco a sua história de superação, e provar que para ser um super pai só é preciso querer e não há desafios que não possam ser enfrentados.

 

Diga-nos por favor o seu nome, idade e profissão. Está trabalhando atualmente, onde e em qual função?

Wander Viana Santos, 47 anos, funcionário público municipal, trabalho como escriturário na Secretaria do Trabalho e Renda da Prefeitura do Município de Piracicaba.

 

Resumidamente, como foi a sua experiência com a perda da visão? Por favor, nos conte um pouco sobre a sua história.

Em julho de 2008, comecei a perceber um pequeno ponto embaçado em meu olho direito. Fui ao oftalmo e de início ele disse não ser nada, provavelmente algum cisco que poderia ter arranhado o olho, deu um colírio e fui para casa. Passaram-se alguns dias e o ponto embaçado continuou até que um dia acordei com o olho todo vermelho como sangue. Corri ao médico, começaram os exames, e logo o diagnóstico, herpes ocular. Como o diagnóstico foi tardio a herpes já estava bem agressiva, causando o descolamento da retina e já passando para o olho esquerdo. Passei por 3 cirurgias para tentar colar as retinas, já que a do olho esquerdo também já havia descolado, porém sem muito sucesso. As retinas já haviam se danificado.

Então em um prazo de 3 meses, pois a ultima cirurgia foi final de outubro, já fiquei cego.

 

Quais foram os maiores pensamentos que você enfrentou ao se deparar com a nova realidade, do que você teve mais medo?

Bem, de início não foi fácil. Pensava “E agora?”, sinceramente nunca questionei “porque aconteceu isso comigo?”, mas como toda pessoa que passa por um trauma deste nível, imaginei que não poderia mais tocar minha vida, que teria que depender dos outros para o resto da vida.

Tive depressão, e tive que fazer análise para “aceitar” algumas coisas, para tentar entender o que estava acontecendo, tentar acreditar que poderia continuar com uma vida praticamente normal apesar da falta da visão. Minha família tentava me ajudar, mas por um tempo fiquei muito resistente em continuar. O divisor de águas foi uma conversa com uma prima muito querida que me fez enxergar que eu teria dois caminhos a serem seguidos, passar o resto da vida como um coitadinho dependendo dos outros, ou levantar a cabeça, buscar os meios necessários e continuar lutando e seguindo a vida.

Graças a Deus escolhi o segundo caminho, fui buscar ajuda. Fui para a reabilitação, conheci a Avistar, uma entidade que cuida de deficientes visuais aqui na minha cidade e lá fiz uma parte de minha reabilitação e a Prefeitura também me colocou no processo de reabilitação. Enfim, me reabilitei, voltei ao trabalho, fiz muitos novos amigos e voltei a vida.

 

Depois de tantos anos, quais foram as maiores superações que você nunca imaginou que poderia algum dia testemunhar?

No começo da reabilitação, com aulas de locomoção com a bengala branca, orientação e mobilidade. Aprender a utilizar o computador com o leitor de voz, para mim eram tantas informações, tanto para aprender que várias vezes falei para meu professor (e hoje grande amigo) de orientação, o Eduardo, que eu achava que nunca conseguiria e que iria desistir. Ele sempre me incentivava e dizia para eu ter força. Hoje devo muito a ele, e tudo que eu nunca imaginaria que conseguiria fazer, hoje está incorporado em minha vida, em meu corpo, faço tudo sem pensar, todas as técnicas, já fazem parte do que sou hoje. Como as pessoas que convivem comigo dizem “Até esquecemos que você é cego!”. Até eu tenho hora que esqueço (risos).

Agora, as maiores superações e surpresas que poderiam acontecer, e que eu nunca imaginaria que seriam possíveis, aconteceram: encontrar o amor e a alegria de ser pai.

 

Agora vamos falar sobre família, sabemos que o seu casamento ocorreu após este episódio marcante em sua vida, como conheceu a sua esposa? Pensavam em ter filhos?

Quando voltei ao trabalho, depois do período de reabilitação, fui realocado na Secretaria de Educação. Era final de ano, época das festas, e como trabalho na Prefeitura há muitos anos, já conhecia várias pessoas dessa secretaria e todos já sabiam da minha ida para lá.

Apesar de que eu iria começar somente em janeiro, iria acontecer uma confraternização de Natal e fui convidado a participar. Lá, através de uma amiga em comum, conheci a Karol, hoje minha esposa. Na festa trocamos poucas palavras, apenas formalidades.

 

Início da Descricão: À esquerda está a Karol, ao lado direito Wander, nosso entrevistado, atrás há balões cor de rosa, dando a entender que a foto foi tirada em uma festa de aniversário. Fim da Descrição

Karol e Wander. Créditos: Arquivo Pessoal

 

Comecei a trabalhar e saímos mais uma vez juntos com nossa amiga em comum. Desta vez, conversamos mais, trocamos telefone e e-mails. Começamos a nos falar pelo MSN (antigo NE?!, risos), e essas conversas ficaram mais frequentes e mais longas. Passado alguns dias saímos só nós dois, conversamos, tivemos uma noite bem agradável, e quando ela foi me levar em casa, demos nosso primeiro beijo. Foi aí que tudo começou. Fomos nos conhecendo, nos apaixonando. Fui conhecendo sua história, que também é de superação. Ela ficou viúva muito nova e com um filho pequeno para criar. Conheci seu filho, o Gabriel, e logo ficamos muito próximos, aliás, toda família dela me aceitou muito bem.

Eu nunca a vi, mas a conheço muito mais do que como a mim mesmo. Como ela sempre diz “Não preciso dos olhos para enxergá-la melhor que ninguém.”. Namoramos, fizemos planos, e em 27/07/2013 nos casamos em uma linda cerimônia. Já no primeiro ano, conversamos sobre se teríamos filhos. Já tínhamos o Gabriel, que nesta altura já o considerava como meu filho e ele já me considerava seu pai. Mas ela me confessou que gostaria de mais um. No começo, resisti, pois imaginava que nunca conseguiria cuidar de um bebê, afinal o Gabriel já estava com 14 anos, mas ela me convenceu e em julho de 2015, veio ao mundo nosso milagre, nossa princesa Ana Clara.

 Início da Descrição: Gabriel e Wander posam para uma foto, ambos com camiseta preta com um fundo brando. Fim da Descricão.

Gabriel e Wander. Créditos: Arquivo Pessoal

 

Que tipo de pensamento passou pela tua cabeça quando soube que seria pai? Em algum momento você pensou que a cegueira te prejudicaria de alguma forma? Depois que ela nasceu, como foi a adaptação do dia a dia?

Como eu disse, não tinha certeza se conseguiria. Passavam mil coisas em minha cabeça, como seria, como eu ajudaria? Como eu cuidaria de uma criança que corre pela casa? Mas, conversei muito com Deus e pedi que se fosse a vontade Dele, que me capacitasse para isso.

Uma certa noite, fomos dormir, e já na cama deitados, a Karol me disse que estava grávida. Fiquei muito feliz. Iria acontecer. Acompanhei de perto toda a gravidez, as idas as consultas, as conversas com a barriga (risos), a montagem do berço e a descoberta que era uma menina. É muito sensacional. Daí, a Ana Clara nasceu, acompanhei o parto, ouvi o primeiro choro, dei o primeiro colo, senti o contorno de seu rostinho, sua pequena mãozinha segurando meu dedo, achei que meu peito nessa hora fosse explodir de tanta emoção, nunca havia sentido tanto amor, aliás nunca imaginei que esse sentimento tão forte existia. Desde então, apesar de muitos medos fomos superando todos juntos em família. Fui aprendendo a me virar, e tudo que achei que seria um bicho de 7 cabeças, por incrível que pareça é natural. Troquei muitas e muitas fraldas, passei muitas noites em claro ninando a Ana. Fiz muitas mamadeiras, enfim, posso dizer que fui e sou um pai como qualquer outro.

 

Quantos anos tem a Ana Clara e quais foram as maiores lições de vida que você aprendeu com ela? Você acredita que a deficiência visual traz algum empecilho em seu papel como pai?

Hoje a Ana Clara tem 3 anos. Ela ainda não tem a percepção real que sou cego, ela percebe que tem algo diferente, pois desde bem pequena, quando ela quer que eu faça algo, ou quer me mostrar algo, e eu não percebo, ela vem até mim, pega na minha mão e me dá a coisa, ou me mostra o que quer. Eu sempre fiz questão de bem cedo me dedicar a brincar com ela, então todos os dias chego do trabalho e dedico minha primeira hora em casa para brincar com ela. Desde o nascimento, ficamos na sala vendo desenhos e brincando com os “milhões” de brinquedos que ela tem. Ela adora que eu conte historinhas para ela, brincar de doutor, de professora e de mercado.

Ser pai é um desafio. Eu tenho esse desafio em dobro, pois o Gabriel hoje já é um homem, está com 19 anos, está na faculdade, e dá as preocupações para um pai que quer ver seu filho seguro fora de casa, afinal ele está na fase de sair para a vida, e nesta hora, nós pais, ficamos com aquele nó na garganta e nos questionando se fizemos tudo certo para ensiná-los para essa fase tão difícil que é a fase adulta. Mas graças a Deus somos muito companheiros, conversamos sempre, dou meus conselhos, e sempre o ajudo no que ele precisa e ele sabe que poderá sempre contar comigo. A Ana está na fase de “eu sou o centro das atenções” (risos). Como eu já comentei, ela ainda não tem percepção da minha condição. Como a Karol sempre que quer que eu veja algo concreto diz: Apalpa aqui e dá a coisa na minha mão, a Ana já faz igual. Pega o brinquedo e dá na minha mão e diz “Papai, apalpa aqui!”.

 

Início da Descrição: Wander com a Ana clara no colo, Ana Clara está vestindo um vestido rosa e um chapéu rosa e atrás dos dois há uma imagem da Barbie. Fim da descrição.

Wander e Ana Clara. Créditos: Arquivo Pessoal

 

No programa do Encontro com a Fátima Bernardes percebemos que foi a primeira vez que você teve contato com um desenho da sua filha de forma acessível, como foi essa experiência?

Foi incrível, como todos viram. Até paguei o mico de chorar ao vivo em rede nacional (risos). Mas, é sensacional sentir o relevo do desenho, poder ver como qualquer outro pai o desenho de sua filha, é uma sensação indescritível.

 

Como você acredita que a tecnologia e acessibilidade podem te ajudar a acompanhar o desenvolvimento da sua filha?

O avanço da tecnologia está muito rápido. Acredito que as tecnologias assistivas estreitam cada vez mais os laços entre as pessoas com deficiência e as que as cercam. Vários meios tecnológicos fazem hoje com que eu possa interagir com a Ana e o Gabriel. E não só a tecnologia, os mobiliários urbanos acessíveis como pisos táteis, placas indicativas em Braille, parques acessíveis e etc., fazem com que eu consiga também interagir na sociedade junto com meus filhos.

 

Como pai, quais os seus sonhos para o futuro dela? O que você diria para outras pessoas que se encontram na mesma situação, e querem ser pais, mas têm medo e se acham incapazes?

Bom, para o futuro, gostaria que a inclusão e a acessibilidade fosse um tema a ser incorporado definitivamente na vida das pessoas. Gostaria que no futuro da Ana ela não precisasse discutir esses assuntos. Que ela escutasse minha história como uma bonita história do passado e que não tivesse que viver com as diferenças existentes hoje. Que as pessoas com deficiência fossem vistas apenas como pessoas, sendo suas deficiências apenas um estado, tal como uma dor nas costas constante que uma pessoa possa sentir, tal como usar óculos, tal como ser careca. Enfim, que antes de se enxergar a deficiência, todos sejam vistos primeiro em suas emoções, suas qualidades, suas potencialidades, como um ser individual, uma pessoa a ser considerada em si mesma.

Para os que pensam em ser pais, não tenham dúvidas. Se joguem de cabeça, vale muito a pena. O som da palavra “pai” ou “papai” apaga todo e qualquer problema ou dificuldade que se tenha e só fica o sentimento de amor correspondido. Faz a vida valer a pena, e “elimina” a deficiência. Nos torna seres humanos completos!

 

Para terminar, qual mensagem você deixaria para seus filhos neste dia dos pais?

Para meus filhos só tenho a dizer que os amo muito, ser pai é um grande desafio, e ser um pai com deficiência, além do desafio diário, é um grande privilégio que me foi dado por Deus. Quero que eles saibam que sempre estarei ao lado deles, protegendo, guiando, amparando… Quero que saibam que minhas mãos estarão sempre estendidas e meu colo sempre disponível para todas as vezes que necessitarem durante a caminhada de suas vidas. Obrigado Gabriel e Ana por me darem a oportunidade de ser seu pai. Meu amor por vocês é além da vida. Um beijo a vocês. Papai os ama MUITO!!!

 

Início da Descrição. Foto da família do Wander, da esquerda para a direita: Gabriel, Ana Clara no colo da mãe Karol e ao lado Wander, a foto está próxima, mostrando somente do tronco à cabeça. Fim da descrição.

Da esquerda para a direita: Gabriel, Ana Clara, Karol e Wander. Créditos: Arquivo Pessoal

 

A Tecassistiva agradece ao Wander por ter nos concedido essa entrevista. Desejamos a ele e a todos os pais um Feliz Dia dos Pais!

 

 

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